segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Por que não sou um eleitor

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Esses dias, assistindo ao horário eleitoral, me surgiu uma pergunta fundamental para fazer a toda aquela fauna – a única que infelizmente não está em extinção: Pode você falar pelo menos uma palavra honesta sobre si mesmo(a)? Sem prudência, por favor. Sem conceitos pré-estabelecidos e mal intencionados de democracia. Sem optar por continuar reproduzindo as características “benévolas” que estabeleceram como base de sua organização a eleição de líderes, ou representantes. Por favor, me responda. Assim lhe peço educadamente.

Daí senti um vazio – meu estômago até roncou na hora –, pois certamente nunca ouvirei tal resposta. Um abismo entre dois nadas. Quatro anos de esterilidade de discussão eleitoreira. Eleitores e eleitoras que assim o são por algum tipo de depressão. Por isso buscam algum tipo de amortecimento para seu desprazer. Eis que surge o medicamento perfeito: as urnas – eletrônicas ainda, para se ter um alívio mais imediato. Depressivos e depressivas que depositam seus poderes pessoais de decisão. Ao votar no(a) tal representante – seja de direita ou de esquerda, não há mais importância – se recolhem aliviados(as) à sua vida pessoal e individual deixando a cargo do(a) futuro(a) eleito(a) a gestão da vida coletiva. Assim, depressivos e depressivas deixam de sofrer de si mesmos(as) pois motivos aliviam. E estes não faltam no horário eleitoral.

Meses de congestões por tanto bla, bla, bla. Anos de congestão por tanto silêncio. Políticos(as) verdadeiros(as) artistas em sentimento de fraqueza. Estes(as) o intui e o promove. Estes(as) organizam uma manada de depressivos e depressivas. Esse agrupamento os/as satisfazem. Não inteiro, nem pela metade, e sim partidos – hospitais e hospícios culturais.

Desde pequeno me ensinaram a acreditar que eu era o futuro deste país. Desde pequeno me ensinaram nestas mudanças que nada mudam. Desde pequeno me ensinaram a buscar uma sociedade igualitária, desde que seu poder de decisão não seja efetivamente socializado. Porém, agora, com meus quase dois metros de altura, penso: não tenho mais tempo para ser o futuro. Sou o agora. Pessimista, porém alegre e apostador. Nada me deprime. Não sou eleitor – a não ser por uma burocracia que está mais para uma marca de giz no chão para uma galinha do que qualquer outra coisa. Contra todo esse anti-depressivo; contra toda essa hierarquia de pessoas que curtem privilégios e deveres diferenciados; contra toda essa subordinação às decisões de outrem; contra todas as grandes decisões que não são compartilhadas; há vida após essa “democracia”, ou seria essa uma “aristocracia”? ou seria essa uma “mafiocracia”? Enfim, dá no mesmo. O que não dá no mesmo é que não sou eleitor. Sou apenas um ativista da radicalidade ou da fundamentalidade em criar organizações sociais onde possam abrigar os(as) insatisfeitos(as) com a sociedade atual.

Até o velho Lenin compreendeu perigo parecido de pessoas não deprimidas como eu:
(...) sindicalizar o Estado, isso equivale a entregar o aparelho do Conselho da Economia Nacional, aos pedaços, nas mãos dos sindicatos correspondentes (...) O sindicalismo confia a gestão dos ramos de indústria (...) à massa dos operários sem partido, repartidos nas diferentes produções (...) Se os sindicatos, quer dizer, em seus nove décimos, os operários sem partido, designam (...) a direção da indústria, para que serve o partido?

(Em La crise du parti, 19 de janeiro de 1921)

Texto por: Léo Pimentel

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