terça-feira, 23 de março de 2010

O belíssimo lado negro da força - o Sistema de Cotas

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O tema da "brasilidade" é considerado algo sagrado. No entanto, lá no fundo do coração patriota do/a mais comum do/a cidadã/o "brasileiro/a" há uma inconfessável suspeita: será mesmo o Brasil um triunfo civilizacional? Não é difícil identificar essa suspeita no dia a dia. A identificação mais interessante foi a reação popular, principalmente aquela encerrada em favelas e em periferias por todo esse território, frente a Lei do Sistema de Cotas. Nenhuma guerra racial foi levantada. 

Já nos centros urbanos, surgiu um movimento de intelectuais e formadores de opnião em reação à essa política de inclusão. São sempre os mesmos três argumentos contrário às cotas. É curioso notar como falta imaginação neles. Ora usa-se a idéia do mérito, onde da preocupação como ingresso nasce uma pobre argumentação sobre a precariedade do sistema público de ensino; ora usa-se a idéia  da cota social, aqui a preocupação é a da saída, cuja argumentação que a segue é a de que a universidade é o modo para que haja uma ascenção sócio-econômica; e por fim, ora usa-se a idéia de que o Brasil é um país mestiço, sem "rótulos raciais", donde nasce a terceira argumentação pobre, cujo discurso é sobre a suposta "harmoniosa" contribuição das diversas culturas que se encontram nesse território na formação cultural do Estado-Nação Brasil.

Esses intelectuais de imaginação pobre, mas que por vezes até conseguem construir uma engenhosa argumentação, se embrenham em tolas exaltações indignadas. Felizmente suas veemências não se  transformam em verdades indiscutíveis. Pois o edifício de qualquer argumento logicamente impecável, pode ser tão cristalino que perde relações fundamentais com a realidade cotidiana. Assim tornando-se obsoleta, logo a jogamos na lixeira das incomposturas intelectuais. No caso, o que estamos prestes a tornar lixo é a afirmação de que o processo histórico é inquestionável, não se discute, aconteceu assim e ponto final. Pois é com tal que se tenta concluir que tudo está justificado.  

Pois bem, contra essa incompostura intelectual questionamos esse "fim da história" nos seguintes termos: toda raíz é constituída historicamente. Desse modo não há lado bom ou ruim da história, o que há são quais as infâmias cometidas de nossa narrativa identitária que não gostamos de ver confessadas e denunciadas? Será que as pessoas contrária ao sistema de cotas, e até algumas pessoas à favor, estão dispostas a falar seriamente sobre o encontro entre povos e culturas? Questionar os pontos de vistas tranquilizadores dos descendentes que sobreviveram ao inferno colonialista? E revisar as razões do porquê a língua, a organização social, a religião, o espírito tradicionalista e a unidade econômica - de produção ou de capital - como algo hegemônico, resultado da amálgama harmoniosa entre colonizadores/as, indígenas, negros/as, ciganos/as e imigrantes?

No caso das cotas, pensada em sua história cotidiana, seu sistema simboliza o momento em que resgatamos nossa gênesis étnica para sermos outros. É, antes de tudo, uma política de resignificação identitária. Nada tem a ver com reparações históricas, racialismos, retorno redentor, tribunais raciais, ou mesmo com alguma utopia da igualdade reclamada por alguma autoridade que se quer legítima sem respaldo social. O sistema de cotas não é fim, é meio. Algo que visa desaparecer. É meio para a resignificação da vida cotidiana desde as favelas, as periferias e porquê não? quilombos!

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