sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia do bom gosto da coragem, dia da Consciência Negra

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Dia nacional da Consciência Negra! Celebração? Não! Dia de reflexão em ato sobre:
  1. Transporte forçado de africanos para o solo brasileiro;
  2. Resistência negra à escravidão;
  3. A inserção do povo negro no Brasil.
Pois bem, seguindo o encaminhamento acima, consideremos:
  1. Entre os anos de 1500 à 1822, os portugueses trouxeram à força, africanos e africanas, principalmente do sul do Deserto do Saara, denominada, por convenção eurocentrista, como África Sub-saariana. Em contrapartida à imigração forçada de povos africanos, Dom Pedro II, como representante maior dos/as espantado/as com o fato de que haviam muitos negros e negras por aqui, inicia um projeto chamado "Embranquecimento do Brasil" em 1824. Seu objetivo era incentivar a vinda de povos europeus para ocupação do solo brasileiro. No sul do país, chegam alemães, seguido por italianos, e mais tarde, lá por 1875, nas fazendas de café na região de São Paulo, chegam espanhois, japoneses e sírio-libaneses. Em grande medida, era algo do tipo: realizar a reforma agrária européia no Brasil. [Esse projeto de Dom Pedro II se encontra guardado à sete chaves na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro].
  2. Decididas e valentes criações de comunidades autônomas e autogestionadas por negros e negras fugitivas. Homens e mulheres, de todas as idades, lutando, não por melhores condições de vida, e sim pela própria vida. Chegando até a ser suicída como mais alta afirmação de um viver digno. Lutam contra armas de fogo e contra cães adestrados para matar. Do arrebatamento da sua terra e condução à força para outro mundo completamente desconhecido às comunidades organizadas ao nível de repúblicas até mesmo antes da primeira república européia - ex., Palmares 1630 e França 1792.
  3. 13 de maio de 1888. Nesta data a abolição da escravidão foi oficializada. É neste momento que fica mais evidente que, aquele triunfo civilizacional que a historiografia oficial propagandeia, demonstra sua verdade inconfessa: "ao povo negro, campanhas de 'pacificação' (saques, pilhagens, cidades incendiadas, ódio racial, desapropriação de terras e guerras coloniais), êxodo urbano acompanhado desqualificação de mão-de-obra e dezenraizamento (pessoas com especialização agrária, "livres" para viverem nas cidades como proletariadas; línguas e expressões culturais marginalizadas como sendo "pertencentes a seres primitivos e selvagens").
Agora, aproveitemos o Dia da Consciência Negra para:
  1. Quebrar o encanto do fundo do coração patriota do/a mais comum dos/as cidadãos/ãs: são tolas as exaltações indignadas e pobres os argumentos de que o processo histórico é inquestionável e por tal tudo está justificado. Para além do lado bom ou mau da história, há a história desconhecida. Em nosso rastro histórico há o inferno colonialista, cujo projeto continua até os dias de hoje. Algo a ser encarado de frente para não cairmos na aceitação alegre da idéia de que, antigamente o mundo era bem mais selvagem do que o de hoje. É necessário essa quebra do encanto como garantia da sanidade mental de nossa sociedade: a história pátria ainda está por ser construída, pois o momento do testemunho unilateral acabou - o Brasil não é uma nação, é uma federação - forçada - de nações autóctones, quilombolas e coloniais.
  2. Resignificar nossa memória: Nossos avós foram africanos, nossos pais afrodescendentes diretos, e nós, escravo descendentes! São os/as próprios/as contemporâneos/as, de cada época, a dar significado à sua existência. Depois de séculos exaltando a conquista sob os conceitos de honra e glória, mesclando a conquista em si com os "benefícios" da evangelização, agora é o momento de resgatar do esquecimento todos os feitos e todas as pessoas que souberam defender sua liberdade. Resignificar nada tem a ver com masoquismo, revanchismo, segregação, sedição ou incitação ao ódio. Resignificar é o próprio ato de continuar a desenvolver o talento humano naquilo que nossos antepassados despenderam tantos esforços. É a possibilidade mesma de refinar o caminho aberto por eles e elas.
  3. Inverter a perspectiva do conhecer à si mesmo: em vez da origem, as consequências. Nossos interesses são bem atuais. E eles nada tem a ver com o engrandecimento de valores estereotipados. Não nos interessa procurar posições para competir em ideais reeditados. Não é um posição progressista, nem mesmo um desespero de causas, é sim, recolocar o fundamental dos valores naquilo que não é conscientemente sabido, ou seja, o não contado pela nossa memória cultural. Olhemos as causas como sintomas. Os arquétipos como resultado de precipitações. E, olhemos o "resgatado", do que ficou no esquecimento, como algo que deve ser superado.
Que o Dia da Consciência Negra seja o momento cíclico de revigorar o bom gosto da coragem!

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