segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"Como para furtar há arte, que é ciência verdadeira"

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No ano de 1744, em Portugal, apareceu a primeira edição de um saboroso tratado datado de 1652. Me refiro a uma obra primorosa cujo subtítulo é Espelho de enganos, treatro de verdades, mostrador de horas minguadas, gazua geral dos reinos de Portugal oferecida a El-Rei nosso senhor D. João IV para que a emende. Sim, falo sobre a pérola barroca lusitana, de algum autor ou autora anônima, Arte de Furtar. Tratado saboroso sobre os bastidores da política de gabinete: golpes de propaganda, burocracia leeeeenta, acumulação de cargos, corrupção, peculato, superfaturamento, injustiça social, nepotismo, fraudes, tráfico de influência, suborno, especulação imobiliária, funcionários fantasmas, cabide de emprego, etc.

Porque tal referência, agora no fim da primeira década do século XXI, e em Brasília? Simples! Lá no capítulo LX, cujo título é Dos que furtam com unhas políticas, há um alerta sobre "o fruto que nasceu de tão más plantas" - no nosso caso (novembro de 2009) uma planta da família das rutáceas, a Arruda. Como é de nosso costume não insultar nossos leitores e leitoras com banalidades, ou com interpretações de fácil digestão, se deliciem com o alerta mencionado:

"(...) no ano em que Herodes matou os inocentes, deu um catarro tão grande no diabo que o fez vomitar peçonha e desta se gerou um monstro, assim como nascem ratos ex materia putridi, ao qual chamaram os críticos 'Razão de Estado', e esta Senhora saiu tão presumida que tratou de casar, e seu pai a desposou com um mancebo robusto e de más manhas, que havia por nome 'Amor-Próprio', filho bastardo da primeira desobediência. De ambos nasceu uma filha a que chamaram Dona Política. Dotaram-na de sagacidade hereditária e modéstia postiça".

Agora, deliciem-se com a ilustração do trecho acima:

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