segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Opção pela coragem

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Quando se estuda a história da ciência, no tocante ao desenvolvimento de seus métodos e às diversas posturas dos cientistas frente ao objeto de conhecimento, é comum percebê-la cindida em dois contextos - aparentemente distintos: o contexto da descoberta e o contexto da elaboração (momento do refinamento teórico). Tais são de distinção aparente pois, ambos estão sempre jogando luzes ao outro para que, com isso, a ciência avance. O que conduz a passagem de um contexto ao outro é sempre um olhar composto por um conjunto de identificações, convicções e estereótipos. Porém, esse olhar se dá mediante estratégias de superação - assim como os lógicos contemporâneos superaram os silogismos aristotélicos. Mas, no final das contas, resta uma mesmo impasse crucial: quem faz as regras da prova? Regras estas conduzidas até uma trifurcação de caminho: ou se destrói obstáculos, ou se convence adversários, ou faz com se vivam nas suas condições.

Do mesmo modo, quando se estuda a história dos movimentos sociais, no que diz respeito ao desenvolvimento de seus objetivos iniciais, suas formas de pressão política e resultado, mais ainda, se estuda o que diz respeito às diversas posturas de lideranças e organizações coletivas, também a percebemos cindida em dois contextos: o contexto da utopia e o contexto do o que colocar em lugar das estruturas sociais e políticas eventualmente derrubadas. Tais também sofrem de distinção aparente, do mesmo modo uma movimenta a outra com suas luzes. Até o "final das contas" se assemelha. Mas a analogia tem seu fim. Este limite é propriamente o momento em que o fervor das manifestações de rua e de seus demais modos de protestos passou. É como se, o motivo latente dos movimentos sociais, diferentemente da ciência, fosse algum tipo de "domingo de liberdade", para que se torne suportável a vida cativa ao longo da semana.

Não se faz ciência com cautela - a não ser que o cientista só se autoreconheça como um mero profissional de alguma empresa estatal ou particular. Assim como não se envolve em movimentos sociais por profissão - salve políticos carreiristas ávidos por se promover em políticas de gabinete. A melhor ciência e a melhor política social só é feita com diligência. Em ambas, só se envolve quando se opta pela coragem. Não pela idéia de que se viverá uma vida perfeita, sem riscos e completamente sob controle. Essa promessa deixemos para que as religiões a façam e para as outras indústrias de fantasmas. Esse tipo de esperança são virtudes que não trazem felicidade alguma. Pois é a opção pelo medo. Viver com medo do risco ,ou da possibilidade de que o destino e o sofrimento nada signifiquem, ou de que a vida possa ser uma narrativa tola e também sem sentido, é perder o tesão de viver. É neste contexto, o do tesão e não o da cultura do sofrimento, que pergunto a quem está envolvido com algum movimento social:

Há em seu espírito, o medo de que, após a vitória do movimento, voltarão a prevalecer as antigas leis da(s) instituição(ões) derrubada(s)? Se sim, o movimento já está derrotado desde seu objetivo inicial. Caso contrário, na opção pela coragem da transvaloração, a preguiça é deixada de lado, para que dos contrastes e das incompatibilidades - quase irremovíveis - seja o começo de outras virtudes.

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