domingo, 19 de julho de 2009

E nós que apostávamos e que amávamos tanto a juventude - por Ezio Bazzo

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Sempre que acontece algum evento nacional aqui na cidade, vou para lá com minha mala de 1840, repleta de livros, vender ou pelo menos exibir “minha obra”. Fiquei viciado nessa prática de camelô ainda nos anos 80, quando vivia na Cidade do México. La Plaza de Coyoacan nos finais de semana e la UNAM nos outros dias, depois das aulas, às vezes com meus filhos amarrados às costas como as índias astecas.Durante três dias estiveram aqui uns sete ou oito mil estudantes secundaristas num encontro da UNE. Apesar de todos os discursos, dos revolucionarismos e das fantasias (iguaizinhas, compreensíveis e melancólicas como às dos anos setenta) continuam muito mais interessados numa lata de Skol e num baseado do que num livro. Talvez tenham razão! Mas o que me chamou verdadeiramente atenção (principalmente nas meninas) foi o excesso de banhas e a estatura da maioria, próxima ao nanismo. O que parece uma contradição, pois se há excessos de gorduras, açúcares, levedos etc., nas comidas diárias porque crescem para os lados e não para cima? Posso estar idealizando e distorcendo a história, mas em meu tempo, as meninas (mesmo as Lolitas neuróticas e militantes dos DCEs) eram bem mais charmosas e elegantes.Outra curiosidade: só havia gente de “esquerda”. Os jovens da classe média alta não vieram porque, com certeza, devem estar se adestrando para entrar no STJ, na Procuradoria da República ou no Ministério Público, porque é lá onde trabalham seus padrinhos e familiares, onde estão as grandes mamatas, os salários sigilosos e o Poder. De quando em quando um bando saia pulando e gritando slogans de lá para cá, com bandeiras, camisetas, e bonés etc., como se estivesse rivalizando com outro bando ou com alguém imaginário. Há algo de submissão que me intriga neles. Meia hora depois era a vez de outro grupo, com camisetas e bandeiras diferentes e assim por diante. Tudo lembrava um encontro ecumênico. Hare Krisnas por um lado, Filhos de Jeová por outro. Aqui os Adventistas, acolá os Cristãos dos últimos Dias etc. Exibiam-se uns para os outros porque, evidentemente, devem existir rivalidades infanto juvenis entre eles, rivalidades que se prolongarão até que chegue o dia de lançarem suas candidaturas e de se elegerem para o Senado ou para a Câmara. Lugar onde, sabemos muito bem, tudo se concilia e se harmoniza. Muitos bumbos e muita música. O conteúdo dos discursos era praticamente idêntico aos discursos da época miserável em que os militares estiveram no poder, quando reuniões como estas estavam sempre cheias de dedos-duros e de alcagüetes. Que porra é essa? Surpreendi-me pensando.Eu sou PT – dizia uma morena da Bahia. Ah... Eu sou PSOL - replicava uma loira do RS. Mas tudo indicava que se entrasse na roda alguém do PTB, do PSDB, do PRB, do PDT, do MDB, do DEM ou da PQP, o impacto seria o mesmo: Nenhum. Uma replica precoce do cinismo e da hipocrisia do Congresso Nacional? Liga tal! Corrente tal! Célula tal! Cada um com um crachá de DELEGADO no pescoço. Delegado? Porra, não havia uma designação menos policialesca? – Perguntei a um deles. Puro blá blá blá. De vez em quando falavam do Pré Sal como se falassem da pré menstruação ou do pré orgasmo. Alguns até olhavam curiosamente para minha mala (aberta sobre o capô do carro de um vendedor de cachorro quente), mas quando percebiam que não se tratava da obra do Che, do Lênin, do Trotsky, do Stalin ou dos folhetos dos deputados oportunistas de plantão, faziam meia volta e desapareciam com ares de incendiários.Voilá! Serão eles, irremediavelmente, que amanhã nos comandarão desde os pedestais da República.

Ezio Flavio Bazzo

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