segunda-feira, 22 de junho de 2009

Que não só se curem os já saudáveis!

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Como exercer as ciências médicas e a medicina clínica para além da agenda dos tratados internacionais entre os EUA e governos europeus que visam o controle irrestrito tanto da indústria farmacêutica quanto da assistência médica global? Pois do modo em que está organizada a Saúde Mundial, a medicina somente pode curar os já saudáveis. Como refundamentá-la, de modo que sua base não seja mais a restrição enquanto parâmetro de qualidade de vida?

A saúde é definida como um pleno bem estar físico, mental, emocional e social gozado por um indivíduo. Definição que visa atender as práticas da manutenção e da restauração da saúde. Porém, pensa-se na existência de uma saúde em si. Onde todas as experiências são realizadas apenas para definí-la. O resultado é a existência de uma rede de interesses, por baixo disso, que faz com que a saúde se torne um preconceito. Uma única concepção de ser sáudável para inúmeros corpos. O que torna o estar são/sã uma virture meramente moral. A doença torna-se uma degeneração das "virtudes do espírito" por não ter se decidido seguir a dieta x, ou tomar os medicamentos y, ou seguir monasticamente o estilo de vida z. Viver saudável torna-se a argumentação de uma moral puritana com pretenções à hegemônia econômica e ao controle dos corpos. O que quero dizer é que a medicina está fundamentada sobre o falso princípio de que só há um modo de ser saudável.

Esse preconceito, dito científico, impede os questionamentos necessários e mascara os grandes problemas da saúde. O que é levado para as pesquisas é a ambição que deve ser feito deste e daquele modo e, o desejo de que tal e qual coisa seja assim encontrada. Jamais a coragem e a visão podem ir muito longe. A medicina é organizada dentro dos parâmetros da produção industrial. Assim é seu espírito de modernidade e progresso. Do ponto de vista do usuário do sistema público de saúde o progresso médico move-se a uma velocidade de lesma. Mas do ponto de vista das instituições particulares e das instalações laboratoriais privadas a velocidade parece ser espantosamente rápida.

A medicina organizada segue o seguinte percurso: o primeiro envolvido é um patrocinador - pessoa jurídica que cuida do processo pré-clinico que deve assegurar os efeitos tóxicos e farmacológicos de uma droga, sua triagem genotóxica, seu metabolismo, absorção e efeitos colaterais -; depois entra em cena a instituição governamental responsável por aprovar a venda desse novo produto famacêutico - seu objetivo é realizar testes clínicos para obter dados de segurança e eficácia da droga. Permeando todo esse percurso, há a escolha do modo como as pesquisas vão ser realizadas. Cientistas e pesquisadores decidem percorrer uma linha de pesquisa promissora onde apontam o caminho para que empresas farmacêuticas sigam suas próprias pesquisas. É nesse momento que entra em cena as políticas públicas relativa à patente. Ou seja, o direito de explorar exclusivamente sua comercialização. Em outras palavras, o direito do exercício legal do monopólio. Em nenhuma momento há algum tipo de consulta pública entre diversos setores das ciências médicas e sociedade civil organizada.

Assim, a medicina, em suas pesquisas, estudos clínicos e práticas são supervisionadas por todos os setores de interesse da sociedade intitucionalizada enquanto Igreja, Estado e Corporações. Interesses religiosos, de governabilidade, militares e interesses finaceiros são os principais motivadores e, em grande parte, imobilizadores da Saúde Global. A Igreja se interessa por como a ciência médica pode se desenvolver sem ferir seus dogmas milenares e retrógrados - pesquisas de controle do prazer (abstenção do uso de drogas legais e ilegais) e restrinção das liberdades individuais (eutanásia, aborto, células tronco, etc) são incentivadas. As Corporações se interessam em convencer investidores e arrebanhar acionistas (promessa de fortunas), e recrutar médicos (sobrevivência na carreira até a fama). O interesse do Estado pode ser resumido em administrar os interesses dos diversos grupos de pressão da sociedade - cria e faz valer leis que não ferem o dogma religioso vigentes; garante nichos no mercado de trabalho; cria incentivos fiscais, fecha acordos de pesquisas com empresas privadas de capital internacional, acelera e afrouxa exigência de testes clínicos que requerem cuidados mais aprofundados; e estimula pesquisas para fins militares como os programas especiais do exército para pesquisas com vírus.

Como pesquisador e funcionário da subutilizada e sucateada rede pública de saúde no Brasil, e pretenso continuador do melhor da tradição de Hipócrates e Ibn Sina, é meu dever de médico alertar meus companheiros e companheiras de profissão que nos é necessário saber avaliar, contradizer e combater hábitos, tradições e crenças para que nos seja indicado onde se pode encontrar a própria injustiça da Medicina, que ao meu ver é que, a saúde não é um privilégio de poucos, nem uma moeda de troca, muito menos um reflexo da alma, é antes de tudo um bem livre de e para toda a humanidade.

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