sábado, 2 de maio de 2009

Primeiro de(s) maio - (por Ezio Flavio Bazzo)

Um comentário
Hoje é o dia em que milhões e milhões de demi escravos do mundo inteiro são manipulados por seus partidos e autorizados por seus amos a deixarem os crachás e as algemas de lado para lembrarem os Mártires de Chicago e para comemorarem os supostos avanços e as supostas conquistas no mundo do trabalho. Não é difícil encontrar por aí servos voluntários ou sindicalistas gorduchinhos e desvairados cacarejando chavões de 1886 e regozijando-se ingenuamente de que das odiosas quinze horas (industriais do passado) se passou para doze, depois para dez, mais tarde para nove e finalmente para oito. Oito horas confinados num Ministério, numa fábrica, numa empresa qualquer, com salário fixo, com vale transporte, com estabilidade, com direito a oitenta minutos para almoço e com benefícios funerários... Isto não é a glória? Graças a Deus!

Critico mas não nego que sempre assisti com uma espécie de fervor as manifestações de Primeiro de Maio dos anos 70 e 80 pelo mundo afora. As de Moscou eram inconfundíveis. As da China inesquecíveis. As de Paris sempre pareciam réplicas da de 1889. A de Roma tinha além do charme das Brigadas Vermelhas e da benção do Papa, os trabalhadores beatos levando numa mão a obra de Cafiero e na outra a última Encíclica. A Albânia. Cuba com o discurso febril e religioso de Fidel Castro. Mas a do México sempre foi a mais fascinante de todas. No meio dos discursos transtornados daquela gente sempre havia alguém comendo tortillas, gritando pelo nome de Pancho Vila, sacando uma pistola e a descarregando para o alto. Assisti essa festa também em Buenos Aires, nunca esqueci aquele povo culto, melancólico e doentiamente nacionalista tendo crises histéricas diante da Casa Rosada. El Trabajo! El Trabajo! Queremos Trabajo! Mesmo os que haviam lido o ELOGIO À PREGUIÇA do genro de Marx, passavam o dia gritando diante dos palácios: Queremos Trabajo! Queremos Trabajo!

Não, hoje não se vê mais nada parecido aos espetáculos varonis e delirantes daqueles tempos. De vez em quando descubro algumas bandeiras tremulantes num semáforo ou mesmo ali na Esplanada dos Ministérios. Fico curioso, mas quando me aproximo vejo que são os Filhos de Jeová, os Militantes da Igreja do Reino de Deus, uma manifestação gay, ou mesmo sete ou oito adolescentes fazendo propaganda para a Citroen ou para a Casa da Banha. O tédio é bem mais denso do que se imagina. Os locais de trabalho na atualidade ou são pequenas prisões regidas pelo acosso moral ou pequenos manicômios disfarçados pelo otimismo e pela irmandade. O que se ganhou em tempo se perdeu em saúde, em libido e em dignidade. Por isso, quando cruzo com alguns desmiolados querendo comemorar alguma coisa nesta data lanço-lhes logo na cara as palavras do velho Vargas Vila: “Não me venham gritar e fazer gestos de liberdade sacudindo no ar vossas correntes! Eu não lhes concedo o direito de cidadania na urbe do pensamento.”

[texto extraído do blog do autor Ezio Flavio Bazzo]

Um comentário :

Aristhoteles disse...

Artigos como esse é de fundamental importância para nos mostrar a sociedade que vivemos. Talvez por estarmos inserido nela, pouco tempo nos deixam para enchergar elementos tão preciosos relatados aqui.
um grande abraço a todos!